SAL
Sabe aqueles dias em que você pensa muito e fala pouco? Esses dias são os poucos dias férteis, e são eles que adubam minha mente. Será por causa desses dias que você poderá ler meus textos, porque minha mente em si é estéril.
Explicações!
Não, mas achei que ninguém mais lia.
Agora que sei que alguém lê, volto a publicar minhas confusões mentais.
Aproveitem (ou não).
Sal.
3 letras?
SAL
Eu sou
Digressões
Enfrentar o estranho que se posta no espelho toda vez que passo por ele é tarefa árdua. Pior é enfrentar o estranho que habita em algum canto do coração!
Estranhos somos nós! Tanto eu quanto ele!
O único comum nessa estória é o próprio coração, personagem carcomido pelo tempo como páginas amarelas de uma lista telefônica!
Inclusive aquelxs que me puxam a orelha quando transformo minha vida em um espaço de leitura aberto não se preocupam em estreitar comigo um outro tipo de diálogo!
E o que se impõe é uma estranha sensação de solidão que tento superar com o café, cigarro e leitura!
Pois é, começo a acreditar que a internet é uma adaga sem cabo, ao segurá-la é inevitável não se cortar ao desferir golpes em sentimentos invisíveis! Uma adaga que todxs seguramos com força, aquelxs que usam ou negam, todxs!
Até porque a superficialidade está com a mesa posta, sentadinha, esperando por nós, cheia de dentes afiados. E não se engane, nós somos o prato principal!
Sendo assim, lá vou eu ser devorado pelos convidados da ceia: superficialidade, solidão e individualismo!
De nada vai adiantar espernear, a adaga já cortou a carne e os convidados já salivam!
Nós mesmos nos servimos como prato dessa refeição suculenta que chamamos de vida!
Boa digestão!
Garagem de sonhos
Levanto-me, arrasto-me até um espelho e olho no fundo dos olhos em reflexo.
Dias em que lembranças me enchem, que o coração transborda, que a mente voa.
Sinto-me só, sinto amores que rondam, sinto amores que somem.
Sinto muito!
Parece não haver espaço para dentes, e o sorriso fica recolhido em uma garagem de sonhos estacionados e empoeirados.
Amo acordar assim, assim: completo e vazio.
Distâncias se somam e dão voltas pelo planeta. Pessoas que quero aqui, pessoas daqui que me têm longe.
Um passageiro que se olha pela janela, misturado à paisagem que o vidro separa.
Tão mesmo, tão distinto.
Sem saber se choro ou entro no banho, sem saber se amo ou se me amam, sem saber se quero ou sou querido, sem saber conjugar o verbo querer.
E querendo!
Vendo rostos que se misturam e entram por meus olhos.
São rostos tão diferentes, com sorrisos e gemidos, com olhos que se contraem enquanto me seguram pelos cabelos, com mordidas entre lábios.
São plurais e singulares.
E são muitos.
Sinto-me só, sinto amores que rondam, sinto amores que somem.
Sinto muito!
:')
Entendimentos
Eu vivo de amores!!!
Eu vivo de amores!!!
...
Amores que duram uma noite, amores que duram semanas, amores que duram 2 meses, 6 anos.
Amores que viram amigos, amores que viram desafetos.
Amores que me odeiam, amores que ainda me amam.
São difíceis, amores que doem, que dão saudade.
Começo a guardar um cemitério de amores na memória, desses cemitérios militares que vi na Normandia francesa, com cruzes brancas em um campo verde, cada cruz com um nome.
Em dias de chuva, enquanto suspiro pelo último amor a doer, é inevitável não dar uma volta pelo cemitério. Sem flores nas mãos, apenas uma camiseta branca, um jeans velho, meu AllStar vermelho sujo nos pés, meu fone de ouvido, uma música antiga, tipo "Espelhos d'água", da Patricia Marx, que eu cantava quando tive meu primeiro amor.
Vou passando por cada cruz, olhando cada nome, sorrindo. Aquele sorriso doído que vem com as lembranças de beijos honestos, carinhos sinceros.
Aquele sorriso de canto, que dei para todos esses amores, quando ninguém mais podia ver.
A saudade, esse demônio cristão que aperta o peito, começa a sufocar. Outra cruz, outro amor, outro adeus.
Eu poderia passar em frente a esse cemitério sem nunca entrar, mas reviver amores é reviver na memória cada "Eu te amo" ouvido ou desejado, dito ou calado.
Depois de algum tempo, saio desse lugar, enxugo as lágrimas que vieram, as loucas suicidas que se jogam dos nossos olhos contra o que encontrarem.
Fecho o velho portão de metal, cheio de musgo, viro-me para a grande avenida que se chama "Futuro", suspiro e sigo caminhando, quem sabe ali na próxima esquina esteja um novo amor, um novo "Eu te amo" a se ganhar.
Talvez seja um novo rosto, talvez seja um antigo, afinal, naquele cemitério não há ninguém enterrado. Há lembranças!
Mas hoje, exatamente hoje, tem um rosto que gostaria de ver.
Mas essa esquina está longe e esse nome ainda não está naquele cemitério!
Quem é você???
Para todos
Encanto de Sereias
Impulso!
Frio de junho
O começo do fim do meio...
Escute o começo do fim do meio...
E se eu te pedisse uma vez,
Se eu implorasse talvez,
Você seria minha vida?
Você seria minha ida...?
Se é pra testar, pra correr , pra chorar
Você seria minha volta...?
Como quem chora a rima solta,
Como quem se perde no mar...?
Se eu te implorasse,
Chorasse, calasse...
Você seria minha, meu, pra mim..
Seria um negro marfim?
Escute o começo do meio do fim.
Talvez, se... talvez.
Como, quando e por quê???
Você seria a interrogação,
Aquilo que quero ter?
Se eu te implorasse,
Chorasse, calasse...
Você seria minha, meu, pra mim...
Seria tão negra assim?
E se eu te pedisse uma vez,
Se eu implorasse talvez,
Você seria minha vida?
Você seria meu?
Metade
Será mais complexo.
E talvez desconexo.
E talvez você ache feio,
Mas,
Vou tentar...
Não me olhe com esses olhos verdes assim.
São verdes como a esperança.
Chega!
Olhe para lá!
Ah, não. Não me olhe com esses olhos verdes assim.
Verdes como manga com sal,
Sabor estranho!
Salivo.
Não me olhe com esses olhos verdes assim!
Cor de erva, maresia e sono.
Pare!
Olhe para mim!
Não gosto quando me vê
Sem roupa, sem carne.
Não quero ficar tão nu.
Vamos ver um filme, venha.
Sente no sofá comigo.
Use meu moletom azul.
Vamos embora comigo?
Só vou perguntar quatro vezes.
Ah, não. Não me olhe como Alf, o sedutor.
Diga que vai.
Não me olhe como um robô michê de AI.
Vire esses olhos verdes pra lá!
Diga que vai.
Vamos, faça uma invasão de domicílio.
Chegue perto demais. Mais “Closer”.
Algo como o amor não tira férias.
No fim, eu só queria um beijo roubado.
Hum. Vamos mesmo?
Choverá, abrirei o guarda-chuva pra você.
Caminhe comigo, pendure as roupas no varal.
Ponha o moletom azul.
Tire o moletom azul.
Deite comigo.
Não! Não olhe com esses olhos verdes no travesseiro.
Feche os olhos.
Pense em mim como algo passageiro.
Hum. Abra os olhos!
Deixe que a noite entre e saia.
Me olhe. Me beije. Me abrace.
Abra os olhos pra mim.
Estou confuso com tudo.
Posso ganhar só um abraço?
Tem alguma rosa pra mim?
Quem sabe, duas?
Será mais complexo.
E talvez desconexo.
E talvez você ache feio,
Mas,
Vou tentar...
Tem alguma rosa pra mim?
Quem sabe, duas...
Metade?
Belém, blém...
Por quem os sinos dobram?
Os sinos...
Doces meninos,
Dobram em Belém.
Mas se eu dobrar a esquina,
Curva pequena.
Dobro em você.
É só subir aqui,
Que eu desço ai.
E as sacadas serão os palcos.
Por que os sinos dobram?
Aí, jamais saberemos.
Por suaves venenos,
Vinhos argentinos ou chilenos?
Pontes-aéreas,
Pontes sobre mares,
Ou rios em todos os lugares,
São meros espectadores.
Os dias se passaram,
As mãos se passaram,
As tias continuam nas janelas.
E foram botos, açaís e patuás.
E foram bois e bumbás.
E foram, cada qual para seu norte
E sul.
Mas ficou algo.
Um gosto amargo de crueldade.
O seco do vinho na boca.
O aperto de uma cama pequena.
E fincou algo.
Um espinho que machuca.
Uma mordida na nuca.
Um adeus velado e cru.
Será que volta?
Os sinos da igrejinha da esquina
Não pararam de tocar.
Nem as águas, dos rios e mares,
Pararam de correr.
E como janeiro é mês de chuva no país,
Talvez volte com as águas,
O gosto cruel da boca seca de vinho.
Christy em Sal
Como um bom christão,
Cerro os olhos e rezo.
Ponho as mãos em palmas e
Penso em minh’alma.
Penso em teu sangue,
Escorrendo por minhas mãos,
Que lambo suavemente,
Pensando em teus dons.
Como Christy em cruz,
Abro os braços
Pro teu abraço,
Em sol, em luz.
Nem santo, nem demônio.
Nem Pedro, nem Judas.
Tenho outro nome,
Outros erres, outros as.
Sou teu filho,
Sou teu pai.
Sou teu amor.
És minha dor,
És meu ai,
És o gatilho.
E sempre que atira,
É em mim que acerta.
Não sei se flerta
Com a mira.
Mas o sangue é meu,
Escorrendo por tuas mãos.
Que suga como ateu,
Pensando em meus dons.
Christão, serei eu.
E Sal será teu chão.
E os pés descalços,
Em carne pisarão.
O universo goza você
Tenho imagens mentais confusas.
Vejo você dançando em volta de uma árvore,
Vejo a lua, anzol pescando estrelas.
Sonhos coisas escusas,
Vejo você dançando sem roupa,
Vejo a lua, nua, louca...
E as estrelas?
Ah! As estrelas piscam,
Mini-orgasmos pulsantes
Ou um orgasmo gigante.
O Universo goza você.
Tenho imagens confusas.
Ingênuas, sacanas, obtusas.
Vejo você...
sufoco
se te sufoco, e então?
é porque tentei sufocar antes em mim as dores de uma partida sem vida.
é porque tentei sufocar os gritos de dor e desespero pelos sonhos quebrados.
é porque tentei sufocar as lágrimas de um tempo que não pretende voltar...
se te sufoco, então...
é porque tentei manter o desespero em um coração pequeno.
é porque tentei calar o grito em uma boca grande.
é porque , em vão, pus as mãos sobre o corte que não pára de sangrar...
se desisto, e então?
é porque a partida veio e a vida foi.
é porque a os sonhos ecoaram em paredes vazias.
é porque o tempo inundou os olhos cansados.
se desisto, então...
é porque o coração não suportou.
é porque a boca não calou.
é porque o sangue acabou.
e se tudo tem um porquê, ele ainda não bateu a nossa porta.
será que demora????
Quando eu conseguir...
Quando eu conseguir,
Eu prometo deixar de lado
As amarras que quebrei.
Mas até lá,
As amarras estarão em meus pulsos
Sujas de sangue.
Meu suor, minhas lágrimas,
Tudo estará lá.
Em você e nas amarras.
Quando eu conseguir,
Eu juro que deixo lá,
O sorriso doce.
Meu sangue, meu leite,
Tudo estará lá,
Em você e nas amarras.
Queria poder viver melhor
Sem você.
Sem as amarras.
Meu sangue.
Meu sorriso.
Meu amor.
E as amarras ficarão lá,
Quando eu conseguir.
Fazenda Esperança
Cansado, deixou que a mala caísse sobre a cadeira.
Até que gostava de viajar, mas essa rotina já pesava sobre o corpo envelhecido.
Sorriu para a mulher que passava pelo caminho. Nem sempre as pessoas sorriam de volta. A vida de itinerante era vista como algo impróprio para homens solitários. Mas dessa vez, ao menos dessa, a mulher sorriu de volta. Antonieta se importava com o que os outros diziam, mas ela era outra solitária da fazenda, não via problemas em manter essa relação cordial com o vizinho.
Giovane chegava aos 40 anos. Solteiro, sem filhos. Nunca foi bonito. Sempre magro, sempre quieto. Morava na fazenda Esperança havia uns 15 anos. Chegou lá com seus pais, Tereza e Pedro Paulo, vindo do interior de Minas Gerais.
Não era alfabetizado, mas sabia calcular muito bem. E foi por isso que aceitou trabalhar como vendedor de mantimentos. Seu pai sempre fora peão, sua mãe sempre dona de casa e não era isso que ele planejava para si. Queria conhecer outros lugares, ver os mares, coisa que, aliás, nunca conseguiu.
Empurrou a mala para o chão com o pé esquerdo e sentou-se na cadeira. A estrada da fazenda passava uns 5 metros de sua varanda. Pegou o fumo do bolso da camisa suja e sem os 3 botões de cima. Pegou a palha e fechou um cigarro.
De pernas cruzadas, sentado, olhou para Antonieta que seguia pela estrada. O pôr do sol com sua luz laranja deixava seus cabelos loiros da cor do fogo. Seu vestido de chita branca voava e a obrigava a segurá-lo com uma das mãos. Suas nádegas ficavam marcadas pelo tecido.
Sentiu seu pênis enrijecer. Tocou-o por cima da calça com a mão esquerda. A direita segurava o cigarro. Ficou assim, alisando seu membro rijo até que a mulher sumisse de sua vista.
Pensou em entrar e se masturbar. O único ato solitário que lhe dava prazer ultimamente. Levantou-se.
Antonieta caminhava pela estrada a passos longos. Não gostava de andar sozinha depois que escurecia. Voltava da casa da patroa. Era empregada da dona da fazenda, Veridiana, uma senhora rica, filha única, viúva sem filhos que transitava entre a cidade e a fazenda levada por seu advogado Emanuel. Ninguém sabia que relação eles tinham, se eram amantes, se a velha o tinha como filho, se ele queria roubá-la. Muitos achavam que ele esperava pela sua morte para mostrar os dentes. Antonieta não gostava dele. Tinha olhos muito espertos, dizia para os outros vizinhos, aliás, todos empregados da velha.
Faltavam uns dez minutos para que ela chegasse a sua casinha. Um quarto, uma sala, uma cozinha. O banheiro, como em todas as outras casas de empregados, ficava separado dessa estrutura. Parou. Lembrou-se que D. Veridiana havia dito que se ela visse Giovane, que lhe pedisse para ir vê-la. Ficou por alguns segundos pensando se voltaria,e achou melhor dar o recado logo. Qualquer coisa ele a acompanharia até sua casa depois.
A casa dos dois eram as únicas para aquele lado da fazenda. A dele foi construída ali porque os mineiros tinham outra cultura, não dava pra misturar com os alemães que ia dar briga, dizia o velho pai de D. Veridiana. Já a casa de Antonieta acabou indo para aquele lado porque meninas puras não deviam conviver com ela. Seu falecido marido a conheceu em uma casa de tolerância para os lados do Paraná. E contrariando os pais, levou-a para morar lá. Não foram muito felizes, menos de dois anos de casamento e ele foi morto por um touro. Desde então, ela trabalhava na sede da fazenda. Ajudava a mulher do capataz. Diziam que o velho dono, pai de D. Veridiana, fazia questão de tê-la trabalhando lá, uma distração para os olhos cansados.
Antonieta voltava. Fazia uns 8 anos que morava sozinha ali. Mas ainda tinha medo de ser agredida. Afinal, todas as pessoas do lugar sabiam de seu passado. Seu medo era tanto que nunca ia aos bailes da região, mesmo quando convidada por alguém. Sendo assim, nunca havia estado com outro homem. Para satisfazer seus impulsos sexuais, gostava de deitar nua, ainda molhada depois do banho, e cruzar as pernas com força, sentindo seu clitóris pulsar. Ficava assim até ter um orgasmo. Aí secava-se e dormia.
O escuro agora tomava conta do tempo. Antonieta seguia a divisa da terra com a grama, caminho marcado pelo gado. A lua cheia clareava o trajeto. Mas estava arrependida de não ter chegado a casa primeiro e pego uma lamparina. Não sentia atração por Giovane, sentia pena dele. Lembrava do dia que seus pais morreram. Ladrões de gado entraram em sua casa e atiraram contra os velhos. Ele viajava, só chegou quando já haviam sido enterrados. Como ele vendia os produtos para todos os vizinhos, D. Veridiana achou melhor que ele não saísse dali. Outro mascate demoraria muito a ser aceito pelos alemães.
Estava chegando ao portão de Giovane, ainda lembrava o medo que sentiu no dia dos assassinatos. Revivia os sons que ouviu. O pavor que os assaltantes fossem para sua casa também. Pensou em gritar no portão, mas não queria que os outros vizinhos e vizinhas a vissem ali. Poderiam pensar algo negativo. Assim, abriu o portão e se dirigiu para a casa. Ia chamar Giovane discretamente pela janela e dar-lhe o recado da velha.
Quando chegou a janela, viu Giovane nu, sentado em um pelego no chão da sala. Ele se masturbava e soltava uns gemidos. Ficou tão envergonhada que pensou em ir embora, mas algo chamou sua atenção.
A sala tinha poucos móveis. Velhos, sujos. Um lampião no chão ao lado direito do homem iluminava o ambiente de baixo para cima. Ela, lentamente colocou seu olho direito no canto inferior da janela, de uma forma que não pudesse ser vista. E fixou o olho na mão esquerda de Giovane.
Ele se masturbava com a mão direita, sentado com as pernas abertas de costas para a parede e de frente para a janela. Com a mão esquerda ele massageava seu ânus. Introduzindo levemente o dedo indicador. Dessa forma podia também massagear seus testículos com o punho.
Giovane, de olhos fechados pensava em Antonieta, e a imagem da bunda colada ao vestido. E ao abri-los levemente, pode vê-la na janela. Mas não se assustou, achou que era parte da sua fantasia. Foi então que disse seu nome em voz alta, como um gemido. Antonieta.
Ela sim se assustou, achou que ele a havia visto e gostado. Sentiu um frio subir e descer pela espinha. Depois do frio, sentiu um calor subir pelo ventre. Sentiu sua vagina se contrair, e cruzou as pernas com força como fazia em casa. Lembrou-se do marido, lembrou-se do motivo que o fez tirá-la do prostíbulo e casar-se com ela. Ele gostava de ter o ânus massageado, ela pensou em como ser dominadora lhe dava prazer.
Mesmo aos 40 anos, Giovane nunca tivera coragem de realizar suas fantasias sexuais. Sempre que estava na companhia de prostitutas, era um típico macho, como pensava. Penetrava a fêmea e só, como os cavalos e bois. Muito raramente pedia sexo oral. Sexo com essas mulheres era quase um ato de desespero. Era apenas para ejacular. O prazer era resumido à ejaculação. Mas quando estava só, se permitia explorar o corpo. Já havia introduzido dedos no ânus, já havia brincado com cenouras, penetrado abóboras, melancias. Solitário, Giovane se permitia ter prazeres. Sentia-se um galo. E como diziam os mais velhos, galos trepam pelo rabo e só comem galinhas.
Antonieta não demorou muito pra sentir as pernas amolecerem. Suas roupas íntimas ficaram inundadas. Sentiu-se novamente uma puta. Teve vontade de apanhar, de bater. Teve vontade de morder e ser mordida. E mesmo que Giovane não lhe fosse atraente, sentiu vontade de possuí-lo. Fez a volta pela casa, e sem pensar duas vezes abriu a porta.
Giovane deu um salto, viu Antonieta entrar enquanto ele se tocava. Sentiu sua masculinidade escorrer pela sala. Será que ela havia visto ele com os dedos no ânus? Mas o susto não foi o suficiente para que seu pênis amolecesse. Ele se sentiu ridículo, nu, despido de roupas e honra. Seu sangue ferveu. Seu membro latejou ainda mais.
Ela, sem dizer nada, bateu a porta atrás de si. Tirou o vestido pelas alças, deixando seus pequenos seios a mostra. E sempre sem dizer nada, foi descendo o vestido. Ele, em pé, como uma letra t deitada, percebeu que ela também o queria. Foi em sua direção para beijá-la. Ela meteu-lhe a mão na cara. Os cinco dedos marcaram sua face. Ele arregalou os olhos, mas não teve tempo de reagir. Ela o virou contra a parede velha e suja, e sem aviso ajoelhou-se e abriu suas nádegas com as mãos...
Deu-lhe o recado apenas no dia seguinte, depois de toda a noite de sexo sem pudores e limites.
Um corpo.
Nu com o pão no chão.
Bárbara acordou ainda bêbada. Passou a mão pela cama buscando por algum corpo masculino. Se houve, não estava mais lá.
A luz entrava pelas frestas da janela. Era manhã ou tarde?
Puxou a alça da camisola, estava com um seio de fora.
Será que foi lambido? – pensou, passando a mão entre as pernas.
O vizinho de cima, Tiago supunha ela, falava com alguém ao telefone bem em cima de sua janela. Ela ouvia a conversa:
- Então, acordei com minha mãe me chamando. Tinha uma cara pelado em cima da minha mesa. Eu não sabia o que fazer. Disse que era um amigo para a velha não surtar e botei-a pra dormir antes que ela tivesse desejos pelo cara.
- Pelado na mesa do vizinho? – Bárbara saltou da cama.
- Gente, era meu? - sua cabeça deu voltas pela Lagoa, enquanto ela se perguntava em voz alta:
- Ai, será? Eu vim embora sozinha?
Abriu a porta do quarto, olhou para o corredor. Com certeza era dia, mas era manhã ou tarde. Afinal, era domingo ou segunda?
Pensou nos gatos. Não esses que dormiam com ela. Bem, quaisquer que fossem, dormiam com ela. Mas ela pensava nos felinos, Tiffany e Negrão. Os gatos que ela amava porque eram os beijos mais sinceros que ganhava ultimamente.
Não fazia muito tempo que a Tiffy, como se chamava a gata angorá rajada, havia descoberto a dor e a delícia de ser felina.
- Ah, uma ratoooooooo. – foi a única coisa que Bárbara pode gritar. A gata pela primeira vez havia pegado um rato. Ela não estava preparada para isso. Seu nojo feminino era maior do que o instinto do animal.
Olhando para o corredor, viu os gatos virem em direção à porta entreaberta.
- Ai queridos! – foi só o que pode exclamar quando viu os dois vindo para o quarto.
- Mas e o pelado???
Pensou em vestir uma calça. Só de camisola e calcinha fio-dental era pouca roupa para ir até a sala.
Mariana estava no ônibus. Cansada, mal dormira durante a noite. Assentou a cabeça no vidro da janela enquanto o veículo fazia as curvas do morro.
Trabalhar antes das dez ninguém merecia, pensava enquanto via as dunas da praia.
Sua noite não tinha sido das melhores. Morava com Bárbara há algumas semanas, e como as duas eram muito parecidas: lindas, morenas e amigas das loiras geladas, sempre saiam juntas. Mas nunca sabiam com quem voltavam. Quando voltavam juntas.
Mariana fechou os olhos tentando não chorar. A beleza da paisagem era de doer. E a noite havia sido estranha.
Bárbara foi até a sala. A luz invadia o ambiente. Duas janelas sem cortinas. Um rack, uma TV, o som, uma estante e um homem de bermuda azul, com uma tatuagem de Jesus no braço esquerdo, deitado no sofá.
Parada em frente à geladeira, ela olhava com um ar inquisidor para o homem em sua sala.
- É o Marreco? – pensava ela, imaginando ser seu colega de trabalho, com quem ela e Mariana tinham saído na noite anterior.
Aproximou-se, olhou com calma. Sim, era o Marreco. Mas na sala? E de bermuda?
Pensou em ligar para Mariana, pois era no quarto dela que ele tinha ido parar.
- Meu Deus!!! – exclamou em voz alta ao perceber que era ele o homem nu na mesa no vizinho de cima.
Teve quase certeza de que deveria ligar para a amiga.
Mariana já estava no trabalho. Sentia dores na nuca, tinha aquele gosto de guarda-chuva na boca, coisa que todo mundo que bebe sabe como é, e ainda se perguntava: -Eu gozei???
Estava cansada de seus relacionamentos: Amante. Amiga. Gays.
Tinha 30 anos, mas aparentava menos. Bárbara tinha 25 e parecia um pouco mais. Eram parecidas mesmo sendo diferentes. Pareciam ter a mesma idade e os mesmos desejos: -Um grande amor!
Mariana olhou pela bancada cheia de produtos: - Vou pesar essas merdas para ver se têm o peso da embalagem!
Mas antes que pudesse chegar a qualquer produto, lembrou-se do Marreco: -Mas onde foi parar aquele puto?
Quando acordou, seu quarto estava do avesso. Portas e gavetas do roupeiro abertas. Porta do quarto aberta e nada do Marreco pelo apartamento. Só não se preocupou com um furto porque a bolsa estava com tudo dentro. Como estava atrasada para o ônibus, achou melhor ir. – Ele deve ter ido embora.
- Mas onde estaria a tatuagem de Jesus no braço esquerdo?
Bárbara voltou para o quarto. Trancou Tiffy e Negão com ela, e jogou-se na cama com os dois.
Tiago estava novamente no telefone.
- De novo? – pensou ela outra vez com um seio de fora.
- Então, tive que desligar porque minha velha estava me ligando, mas aí para concluir, fiquei parado olhando para o cara, pensei se dava um soco, se chamava a polícia. Aí acabei acordando o louco. Dei minha bermuda azul e mandei-o ir pra casa. Vi que ele tinha posto o saco de pães que comprei no chão antes de deitar-se. Agora fico me perguntando o que teria acontecido se minha mãe estivesse sozinha?
Bárbara, começou a gargalhar. Sim, era o Marreco na casa do vizinho de cima. Pelado, em cima da mesa. Com o pão no chão.
Mariana pesou tudo o que precisava. Deixou de lado a dúvida pela manhã. Mas já era hora do almoço. Tentou fazer o trajeto do bar para casa mentalmente: - Pub, mercado, posto, virei à direita, segui até a praça, ri quando a Bárbara tropeçou no meio fio, direita, rua de casa, pousada laranja, academia, portão, Marreco?
- Marreco???
- Marreco? Ai, que merda, eu levei o Marreco para casa comigo?
- Ah, sim. Marreco do lado direito, portão, porta, Bárbara indo para o quarto dela, eu ligando o som. Marreco tirando a roupa, minha cama. Eu pensando no Camilo. O Marreco brigando com o próprio pinto. O Camilo de novo. Eu rindo do Marreco. Ele me beijando o pescoço, o Camilo; ele descendo por entre minhas pernas, o Camilo; ele xingando o pinto de novo, eu rindo. Ele saindo do quarto. Despertador.
- É, não gozei!
Bárbara dormiu com os gatos. Acordou horas depois:- Sede. Preciso de litros de água.
Abriu a porta e só então se lembrou que um seio ainda estava à mostra.
Arrumou a camisola, e foi tateando pelo corredor.
Olhou para o sofá. A bermuda azul estava no sofá. O Marreco não. Só então se lembrou de que não tinha dormido sozinha.
- Sim, aquele seio foi lambido. – disse rindo em alto e bom tom.
Pensou em deixar um bilhete para Mariana quando saiu para trabalhar. Mas achou melhor fingir que nada havia acontecido; e a bermuda azul segue guardada no seu roupeiro.






