Explicações!

Andei um bom tempo egoista. Escrevi só pra mim e só eu saboreei meus textos. E quando menos esparava e vindo de onde eu menos esperava, me cobraram explicações: "Tu abandonou o blog?"
Não, mas achei que ninguém mais lia.
Agora que sei que alguém lê, volto a publicar minhas confusões mentais.
Aproveitem (ou não).
Sal.

3 letras?

Dentre todas as formas pelas quais eu poderia te conhecer, foi pela torta; a porta entreaberta de nossas vidas!
Talvez não, talvez, mais tortos, impossível fosse!
Seria apenas mais um dos meus desejos brancos, ou loiros, ou de olhos claros!
Sim, se não fosse como uma bailarina cubana ou uma prática chinesa.
Se não fosse uma beleza distinta do que, aqui, se tem!
Seria apenas branco, loiro e de olhos claros!
Seria um nome que se esconde, como se nunca alguém, por maldade, me dissesse que tem mais do que 3 letras.
E que sejam seis, como o meu. Ainda assim, seria torto, tido por errado e confuso!
E se não fosse nada disso, talvez não tivesse meu sorriso aberto, as 5 horas da manhã.
Não teria meu abraço na sacada, em dia de lua cheia, com um disco na vitrola, que me prende.
Não teria um cachimbo 'foucaultiano' na mesinha feita de restos. Não teria nada de mim, além do mínimo que situo nos espaços que me permito ir. Se!
Passo dias sorrindo, sem lembrar quão errado isso tudo começou. Sem pensar em Cristhos e Joãos! Entre nós, Madalenas são melhores vindas!!!
Entre nós, não há espaços de passados! Acho que nem futuros! (Ainda que doa!).
Mas há presentes! E como não abri-los?
Como não desembrulhar tudo ao som do 'The Cure', quando você diz: - Essa música me lembra  muito você! - E enfia um “Boys don’t cry” na minha mente! E logo depois, me beija com Fleetwood Mac! Com uma linda no banco de trás. Enquanto tento beijar teu rosto, e você se vira rápido contra minha boca.
Afinal, que gaúcho é você?
Que tem medos muito gaudérios, mas que se abre ao acaso, como eu. Que em caso de dúvida, grita para as loiras, morenas e negrxs; que de formas diferentes e injustificáveis conheci antes de você. Como se elxs pudessem te salvar de ti mesmo!
Que demônio sou eu? Que cai sobre ti, para te quebrar as pernas, trocar o lugar de corações e baços! Nada que nenhum chinês não tivesse feito antes!
Perco-me! Parco sou! Perverso e pífio!
Caos! Quem é você?
Ing (iang). Quem é você?
.t., quem é você? Que ainda precisa se esconder entre detalhes?
Eu te falei que a banda era de 1970, assim como eu!
Nem sempre é fácil assumir que o tempo passou, que os espaços voltaram, mas eu segui!
E, juro, segui, não corri atrás, apenas segui! Foi o acaso que me trouxe, de várias formas!
Entre seres que me fizeram sorrir, entre momentos que me fizeram chorar.  
Momentos tortos, como se impossíveis fossem.
Mas não foram.
Gringo, colono, cubano, chinês, o que dizer?
Acho que sinto atração por vitrolas, ou seres que as amam!
Acho que sinto atração por você!
E afirmar isso é complexo, caótico. Afinal, tenho pontos e virgulas nas minhas histórias que pularão ao saberem disso (ou não, mineiros são bem quietos). Mas, se afirmo isso, seu colono, é porque entendo que precisamos de pontos finais; virgulas e reticências.
Mas, antes de tudo, precisamos de tempos presentes. Sem passados, sem futuros, sem medos! (Um francês me disse isso certa vez!).
Eu preciso cair! E se não houver braços que me segurem, quebro-me, desmonto-me. Mas vou me juntando, já falei isso no “Frio de junho” (nossa, foi em 2012, e o livro ainda não saiu).
Sigo me desmontando, peça por peça, (hoje) órgão por órgão.
Sem medo de ser ridículo! Sem medo do tempo! Sem medo de nada e de onde eu possa caber!
Se hoje, ao menos hoje, eu sinto vontade de dizer, melhor do que esperar!
Amanhã será outro dia, e Londres nos espera em dias diferentes!
Mesmo que, em outros tempos, eu também tenha tocado sinos em Belém (nossa, viver é cheio de autorreferencias), não sei a que ponto ele pode sentar e escrever que seus órgãos não fazem diferença ou que essas linhas cruzadas são lindas, tão lindas quanto seu ouvido no meu peito sem estetoscópio! Ainda que o seu não seja o mais caro.
Afinal, para ouvir as batidas desse coração, não é preciso do mais caro, acho que basta um ouvido atento, um sorriso aberto e um cafuné!
E tudo aqui, entre nós, termina sem nome, com 3 ou 6 letras!
Espero que não termine!
Quando é assim, tudo torto, espero que não termine, e que seja, e que dure!
Até...

.t.
SAL

Eu sou





Eu sou a puta que todos sonham em ser, mas o pai nunca deixou.
Sou o anjo que ninguém nunca beijou.
Sou a faca que corta a carne e faz sangrar.

Eu sou o filho que todos querem ter, mas abortaram.
Sou a porra que foi para o ralo.
Sou a faca que corta a carne e faz sangrar.

Eu sou a dor que todos querem ser, mas o remédio evitou.
Sou a febre, a coceira, o ardor.
Sou a faca que corta a carne e faz sangrar.

Eu sou a alma que todos tentam tocar, mas não enxergaram.
Sou os óculos 3D para amar.
Sou a faca que corta a carne e faz sangrar.

Eu sou o deus da guerra, mas sem armas.
Sou paz, a inércia, sou calma.
Sou a faca que corta a carne e faz sangrar.

Eu sou o sangue que escorreu, mas ninguém quer limpar.
Sou o pano, alvejante e o lavar.

Sou a faca, a carne e o sangrar.

Digressões

Estranhamentos e enfrentamentos.
Enfrentar o estranho que se posta no espelho toda vez que passo por ele é tarefa árdua. Pior é enfrentar o estranho que habita em algum canto do coração!
Estranhos somos nós! Tanto eu quanto ele!
O único comum nessa estória é o próprio coração, personagem carcomido pelo tempo como páginas amarelas de uma lista telefônica!
...
Assim, ando me impondo restrições sobre a virtualidade! Tentando me desconectar dessa realidade que parece superficializar as relações. E sabe o que é mais divertido nisso tudo: notar que quase não há relação interpessoal além disso!
Inclusive aquelxs que me puxam a orelha quando transformo minha vida em um espaço de leitura aberto não se preocupam em estreitar comigo um outro tipo de diálogo!
E o que se impõe é uma estranha sensação de solidão que tento superar com o café, cigarro e leitura!
Pois é, começo a acreditar que a internet é uma adaga sem cabo, ao segurá-la é inevitável não se cortar ao desferir golpes em sentimentos invisíveis! Uma adaga que todxs seguramos com força, aquelxs que usam ou negam, todxs!
Até porque a superficialidade está com a mesa posta, sentadinha, esperando por nós, cheia de dentes afiados. E não se engane, nós somos o prato principal!
Sendo assim, lá vou eu ser devorado pelos convidados da ceia: superficialidade, solidão e individualismo!
De nada vai adiantar espernear, a adaga já cortou a carne e os convidados já salivam!
Nós mesmos nos servimos como prato dessa refeição suculenta que chamamos de vida!
Boa digestão!
...
Se comparamos o romance impresso
e a internet, vemos que o romance não tinha a pretensão de ser interativo! Ainda não tem, creio eu. A interatividade virtual da internet (como meio de comunicação) esconde os convidados da ceia, os quais citei. Estão todos ali, mas parece que somos nós (cada um/uma, rodeadxs de outros nós; entendidos aqui pela dupla significação do termo: ora plural, ora fios enredados) sentadxs à mesa. E, com esse ar de coletivo, não passamos de individuais, sentadxs ridiculamente sozinhxs, servindo vinhos e caviares, espumantes e peixes ao molho de manga. Servimos praias, rios e florestas. Servimos lindas imagens nossas e lindas frases a convidadxs que não passam de merxs observadorxs. Alguns/algumas, rarxs, servem lágrimas ou sangue. Outrxs, ainda mais rarxs, servem orgasmos. Mas minha percepção hoje está alterada, porque não vejo mais convidadxs à mesa, apenas observadorxs desatentxs que nem notam que retirei suas taças e pratos. Seguem sentadxs por pura inércia. Sorrindo e achando que estão sendo servidxs. E, então, sorrio eu, oferecendo o nada! Xs poucxs que notarem que retirei garfos, facas e comida, logo saem da mesa. Afinal, qual o interesse em uma vida repleta de nada?

Garagem de sonhos


Odeio acordar assim, assim: vazio e completo.
Levanto-me, arrasto-me até um espelho e olho no fundo dos olhos em reflexo.
Dias em que lembranças me enchem, que o coração transborda, que a mente voa.
Sinto-me só, sinto amores que rondam, sinto amores que somem.
Sinto muito!
Parece não haver espaço para dentes, e o sorriso fica recolhido em uma garagem de sonhos estacionados e empoeirados.
Amo acordar assim, assim: completo e vazio.
Distâncias se somam e dão voltas pelo planeta. Pessoas que quero aqui, pessoas daqui que me têm longe.
Um passageiro que se olha pela janela, misturado à paisagem que o vidro separa.
Tão mesmo, tão distinto.
Sem saber se choro ou entro no banho, sem saber se amo ou se me amam, sem saber se quero ou sou querido, sem saber conjugar o verbo querer.
E querendo!
Vendo rostos que se misturam e entram por meus olhos.
São rostos tão diferentes, com sorrisos e gemidos, com olhos que se contraem enquanto me seguram pelos cabelos, com mordidas entre lábios.
São plurais e singulares.
E são muitos.
Sinto-me só, sinto amores que rondam, sinto amores que somem.
Sinto muito!
:')

Entendimentos


Se eu pudesse entender,
Juro que me sentaria bem pertinho do fogo
E jogaria nele as dúvidas, uma a uma.

Começaria entendo porque você chegou,
Já que poderia ter ido a outro lugar.
Seguiria entendendo porque ficou,
Pelo mesmo motivo anterior.
E terminaria entendendo porque se foi.

Esse, de todos os momentos, foi o que menos entendi.

Bateu uma porta, cuspiu uma lágrima, bradou um ‘eu te amo’...
E se foi!

Deixou-me em pedaços sombrios.
Desconexas partes, que ainda hoje não se imbricam.
Se eu entendesse...

Eu poderia te entender!

Eu vivo de amores!!!





Eu vivo de amores!!! 
...
Amores que duram uma noite, amores que duram semanas, amores que duram 2 meses, 6 anos. 
Amores que viram amigos, amores que viram desafetos.
Amores que me odeiam, amores que ainda me amam. 
São difíceis, amores que doem, que dão saudade.
Começo a guardar um cemitério de amores na memória, desses cemitérios militares que vi na Normandia francesa, com cruzes brancas em um campo verde, cada cruz com um nome.
Em dias de chuva, enquanto suspiro pelo último amor a doer, é inevitável não dar uma volta pelo cemitério. Sem flores nas mãos, apenas uma camiseta branca, um jeans velho, meu AllStar vermelho sujo nos pés, meu fone de ouvido, uma música antiga, tipo "Espelhos d'água", da Patricia Marx, que eu cantava quando tive meu primeiro amor.
Vou passando por cada cruz, olhando cada nome, sorrindo. Aquele sorriso doído que vem com as lembranças de beijos honestos, carinhos sinceros.
Aquele sorriso de canto, que dei para todos esses amores, quando ninguém mais podia ver. 
A saudade, esse demônio cristão que aperta o peito, começa a sufocar. Outra cruz, outro amor, outro adeus. 
Eu poderia passar em frente a esse cemitério sem nunca entrar, mas reviver amores é reviver na memória cada "Eu te amo" ouvido ou desejado, dito ou calado.
Depois de algum tempo, saio desse lugar, enxugo as lágrimas que vieram, as loucas suicidas que se jogam dos nossos olhos contra o que encontrarem.
Fecho o velho portão de metal, cheio de musgo, viro-me para a grande avenida que se chama "Futuro", suspiro e sigo caminhando, quem sabe ali na próxima esquina esteja um novo amor, um novo "Eu te amo" a se ganhar.
Talvez seja um novo rosto, talvez seja um antigo, afinal, naquele cemitério não há ninguém enterrado. Há lembranças!
Mas hoje, exatamente hoje, tem um rosto que gostaria de ver. 
Mas essa esquina está longe e esse nome ainda não está naquele cemitério!

Quem é você???


Quem é você?
Não tive tempo para descobrir. Aliás, foi apenas isso que faltou.
Hum, sim! Não foi só isso. Mas foi o que mais faltou.
Não tive tempo para descortinar seu sorriso, para analisar seus grandes olhos. Para reconhecer se atrás desse silêncio havia dúvida, medo, vergonha, tristeza.
Você cortou meus pulsos e exigiu minhas pernas.
Você não gosta de ler, diferente de tantos outros, você não gosta de ler.
Mas eu escrevo!
Você percebe o quão isso complica tudo?
Sem ler, como ver que eu sou um prolongamento dos meus dedos?
Sem ler, como ver que eu tenho mais do que um pênis?
Você cobrou beijos, afeto e chorou.
Você, sem notar, cobrou minha presença, mas ofereceu um cachorro de gravata como companhia.
Justo para mim, que esperava mais palavras.
Você, sem notar, cobrou fidelidade. E te dei!
Ainda que eu negue, ainda que eu finja.
Você teve um corpo completo: alma, coração, sangue e porra.
Você teve meu tempo, meu dinheiro, minhas esperanças.
Quem é você?
O que você ofereceu em troca?
Uma leitura de um dos livros de contos que te emprestei? Um não para um chefe explorador?
Sua beleza ainda não cabe em você. E como você é lindo!!!
Mas como todo jovem, você não nota que sua beleza vai se acabar nos braços errados.
Sejam eles amores, sejam eles braços exploradores, sejam eles fraternais ou familiares.
E sua essência é o que? Quem é você???
Eu poderia te renomear com qualquer letra do alfabeto. Já foram tantos como você.
Confesso que a maioria por uma noite, mas ainda assim, como você fará, perdiam sua beleza sem dizer muito. Como uma flor, que mesmo sem se abrir, vai perdendo seu perfume sem mostrar toda sua forma.
Quem é você???
Quem é você, para quem dei um aliança e selei um acordo?
Quem é você que me abriu a porta da sua casa, mas não me abriu a porta de sua vida?
Agora, me responda quem sou eu?
O que escondi? O que você não soube?
Eu não disse ou você não perguntou?
E se me afastei, você agradeceu aos céus. Eu estava pedindo mais tempo do que devia.
Mas nosso jardim, que é só teu, vai seguir como minha proposta de tentar.
Ali, naquele canto, entre árvores e gramas plantadas, nada a esmo, onde o único acaso era eu, mas poderia ter sido um outro que tivesse condições de olhar estrelas e ver a beleza de estar com você sob elas, ali seguirei.
Se você notar, não disse seu nome, porque isso é uma crônica, um texto, algo que você nunca vai ler. Mas outras pessoas lerão, entre outras das palavras que já vomitei e que algum olho curioso já limpou.
Você ainda não percebeu, aprendemos muito no dia a dia, mas não há magia melhor do que espaços que sabemos que nunca serão nossos, e eles só vêm com palavras.
Como saber que Quintana dizia que a cada novo dia deveríamos fazer um novo trajeto, se nunca lemos Quintana?
Como saber que eu segui esse conselho poético e fui parar na sua frente, sem saber que foi Mário Quintada que me aconselhou?
Por preguiça? Uma preguiça que não te demove de acordar as 04:30h da manhã?
Uma preguiça que não te impede de não ter sábados e domingos?
O capital te criou e te corrompeu, não duvido de que eu te encontre em um semáforo, que cruzarei sorridente a pé, enquanto você espera abrir no seu carrão. Mas que decepção se for o contrário. Se for eu que me corrompi, e tive todas as oportunidades para isso, e você segue trabalhando sábados e domingos. Quão revoltante pode ser?
Quão injusta você dirá ser sua vida?
Oh, meu amor, como te arranco desse vício ignóbil que não te permite entender palavras desse porte?
Como te explico que teu chefe não se importa com sua saúde, com sua vontade, com seus pais?
Como eu te explico que existirão outros como você, que ocuparão seu lugar e farão seu trabalho?
Como eu te explico que você está perdendo uma chance de viver comigo um amor torto, desses que doem ao lembrar?
Bom, não explico. Inclusive porque me pergunto: quem é você?
Será que viveria esse amor torto comigo, entenderia as dores que sentiria?
São tantas dúvidas que me percebo de aliança fora do dedo, na caixa das possibilidades, todas se olhando e dizendo: - Você também não foi a última???

Para todos



Mais um cigarro.
O vinho, sem rolha, bebo direto da garrafa.
A solidão vem sorrateira.
Sem convite, senta-se.
Frente a frente, sorri cínica.

Finjo não vê-la.
Sigo chorando.
O passado passa pela mente.

A solidão abre seus dentes brancos no escuro.
Fecho os olhos.
Ela segue, entre as pálpebras.

Não pretende ir embora.
Começo a contar.
Paro no 33.
Ela me olha pudica.
Em sua expressão, vejo a desaprovação.

Fixo meus olhos nela.
O vinho escorre por um canto da boca.
Ela procura por algo.
Tira do longo vestido uma caixinha.
Estende um braço e me alcança.

Sem saber o que fazer, pego com cuidado.
Abro-a e vejo dentro um coração pulsando.

Intrigado, pergunto de quem é.
Sempre cínica, faz sinal para eu olhar de perto.
Aproximo o olho direito da caixa.
A pouca luz dificulta.

Começo a ver no coração muitos rostos.
Reconheço muitos.
Um a um, sorriem.

Então, a solidão me pega pela mão.
Vagarosa, me leva para a cama.
Deito-me. Ela me cobre.
Senta-se ao pé da cama e finalmente diz:

-Só saio quando alguém chegar!

Suspiro!
Entendo que ela vai ficar por muito tempo.
Não há quem chegará.
Não há quem voltará.
Ninguém, além dela.
Penso no pequeno coração.
Suspeito ser meu.
Pequeno como uma concha.
Imagino que eu esteja me fechando.
Por isso ela tenha me entregue um coração tão pequeno.

Não adormeço.
Pergunto, a ela, a quem pertence.
Ela não mais sorri,
Voa sobre a cama.
Prende-me com suas mãos frias e lambe meu rosto.
Só depois sussurra em meu ouvido:

-O coração é minha metáfora, seu bobo. Não existe amor como você espera. Não existe ninguém que te complete. Se você achar um coração desse tamanho, será em um rato!

Seu hálito gelado me faz chorar ainda mais.
Ela, impiedosa, segue:

-Você nunca foi amado! Eu estive com você todo o tempo. Fui sempre eu que dormi com você!

Berro. Ninguém ouve?
Ela sai de cima de mim.
Volta ao pé da cama.
Fica mexendo no vestido e me olhando.

-Nunca? Pergunto.
Ela faz que não com a cabeça e seus longos cabelos negros.
-Mas...
Ela reforça, com sorriso irônico, movendo a cabeça lentamente.

Aperto a colcha sobre mim.
Aos poucos, as lágrimas cessam.
Desisto de brigar com a solidão.

Afinal, como um deus, lá está ela aos pés de todos que dormem.

Rindo dos que estão em pares.
Debochando dos que estão sós.
Sempre mexendo em seu longo vestido de tule negro.

Encanto de Sereias


Há quatro anos, eu estava meio entediado das idas e vindas com as quais eu vivia. Foi quando você apareceu. Por hora, esse nariz empinado me fez repensar algumas coisas, ao menos um desejo ali se fincou, como um recado no mural de cortiça. Mas as idas e vindas me tomaram pelos braços e fui. Deixei o rosto angelical em um canto da mente e fui pensar em francês, espanhol e inglês.
E, assim, meio de repente, quatro anos depois, você surgiu. Era um novo recomeço, em português. Reli, ‘Acalentador’, era você. Acho que era bem o que eu precisava; alguém que acalentasse um coração quebrado; já expliquei isso antes para outra pessoa que não entendeu bem.
...
Não me contive, chamei. Veio parcial, cheio de dedos. Tímido. Encanto de sereias que gritam meu nome pelo mar.
Fui ao centro. Não do universo, mas do país. Voltei?
Algo ficou lá, um gosto amargo na boca. Mas a precisão de um ‘acalentador’, desses que te abraçam nas noites de frio e te assopram nas noites de verão, eu precisava.
...
A redundância dos termos, ‘precisão’ vs. ‘precisava’, os verbos e seus significados que brincam em concursos fizeram o encantamento aumentar.
Fobias surgiram, e logo assim! Sem meios termos. A timidez vinha sob um novo véu. Sorri!
Preciso aprender a viver com o novo sigma. TOCs, fobias, medos. Justo a mim?
Eu, tão preso a medos, tão sem graça em público, tão ranzinza com a toalha do banheiro embolada? Você me supera?
Sorri!
E veio o convite para nos vermos. Vimo-nos! A camisa xadrez contrastava com o cardigan de três euros da Primark. O suco de laranja brigou com a cerveja Original sobre a mesa. Mas os sorrisos se viram.
Os cigarros ficaram em casa. Assim como o desejo de não precisa-los. As balas foram no bolso.
Sem armas!
Sem armas!
Sim, fui despido de armadilhas. Era apenas eu, sorrindo. As pedras de Itaguaçu, iluminadas pelas luzes dos bares foram testemunhas. Eu vestia o cardigan, mas estava nu.
Porém, ninguém acredita muito. Os aromas e trejeitos me fazem parecer mais esquina do que sou. Modelo e manequim. Puta para maus entendedores e entendedoras.
O beijo roubado no fim da noite me fez sentir um ladrão. Roubar beijos aos 33 anos é tão estranho. Mas, sorri!
Subi sorrindo. E vieram mensagens. E vieram ligações.
E veio um novo encontro. E um convite para subir. Subir? Como se eu morasse no 13º andar. Mas subiu. E valeu a pena cada segundo no sofá.
Os beijos roubados eram a cada dia mais encantadores.  As sereias e bruxas, as pedras que nos viram quando nos vimos, me faziam pensar no rosto juvenil.
Uma pinta à direita, outra à esquerda. Algumas rugas, posso ver.
O endócrino disse a mesma coisa que eu.
Impulso! 
Mielina, axônios, língua, cordas vocais, partes de um mesmo órgão em mim. Cérebro e boca em uníssono.  
E vieram outros encontros e as diferenças se reforçaram, mas ao mesmo tempo a vontade de te ver aumentou.
- Quem é louco? Eu ou você?
Você ainda não me viu chorar, mas eu choro.
Você ainda não me ouviu cantar, mas eu canto.
Você ainda não me falou de si, mas eu ouço.
Eu quero te rever!
Eu quero ser mais!
Eu quero você!
Você!
...
Tire as suas rédeas e você verá que aqui tem alguém que pode galopar ao seu lado!!!
Eu já sei que você é como um ano bissexto. Mas eu, ah...
Eu sou encanto de sereias que gritam teu nome pelo mar.

Frio de junho


O frio batia nos vidros pedindo para entrar. O que podíamos fazer?
O frio entra. Se vai bater, ou não, pouca diferença faz.
E assim que entrou, instalou-se pelo quarto. Era junho, não podíamos evitar.
O que podíamos ter feito?
Bem, a história começa com 3 tragos em um baseado depois de muitos drinks.
O que veio a seguir foi um misto desconexo de diálogos que nos embrulharam no edredom.
Deitados na cama, ele me perguntou se eu estava colocando-o no lugar de alguém. Eu sorri.
-Claro que estou! O tempo todo estou colocando alguém no lugar de outro alguém.
-Eu não quero estar no lugar de alguém. Quero meu lugar exclusivo.
Era ciumento e temperamental.
Sentei-me e ele deitou-se em meu colo, os dois com frio apertando-se um contra o outro.
-Mas eu sou assim. Eu entrego meu coração para alguém. Aí, um dia a pessoa o quebra, eu junto algumas partes e faço um novo. E deixo o espaço vago para alguém entrar.
Ele passou um braço por cima da minha barriga e outro por baixo das minhas pernas.
-Não faça isso! Guarde seu coração para você!
Comecei a chorar. Ele não entendia o que estava me pedindo.
-Não faz parte da minha natureza. Eu sou assim, um feitor de corações. Entrego; junto os pedaços; faço outro, entrego; e assim vou vivendo. Sempre com novas ilusões, novos corações.
Passou a mão pela minha barriga.
-O que você espera que as pessoas façam quando você chora?
Passei a mão por seus cabelos recém-cortados.
-Abrace-me, acaricie-me. Beije-me. Peça para eu parar de chorar...
-Não vou fazer nada disso!
Apertou minhas coxas.
-Por que não?
-Porque não sou assim.
-Devo seguir chorando?
-Faça o que você quiser.
Pensei que o frio vinha da própria cama. Ou seria o frio falando comigo?
-Pena, achei que você seria alguém para quem eu daria meu coração.
-Já disse, guarde seu coração para você.
Desci para dentro do edredom. Ele me abraçou com força.
-Você guarda o seu tão bem porque tem medo!
-Não tenho medo de nada!
-Tem sim! Covardes guardam seus corações. Têm medo de que descubram suas fraquezas.
-Eu não tenho fraquezas.
Apertou meu mamilo esquerdo.
-Tem sim, você é humano.
-Você está me colocando no mesmo saco que todos os outros.
Sorri.
-Você está no mesmo saco que os outros. Somos todos iguais. Todos querem ser amados. Achar a pessoa certa. Ter um cumplice.
-Eu saí de casa aos 16. Sou muito independente.
Virou-se.
-Abrace-me. Tenho frio.
-Mas, você é independente. Para que precisa que eu te abrace?
Virou o rosto. Aqueles olhos, quase verdes, ficaram imóveis, fixos nos meus. Vi brasas saírem de dentro.
-Eu sou independente.
Abracei-o. Passei a mão direita sobre o contorno de seu corpo de dança.
-Você não é independente, nem esconde seu coração tão fundo assim.
-Eu não quero ocupar o lugar de outro. Quero o meu!
Ele não percebia que o lugar já era dele. Nem notou que seu coração estava muito mais exposto do que pensava.
Quanto ao meu coração?
Bem, meu coração ardeu nas brasas daquele olhar.
O senti como um vaso de barro no forno, mudando a forma, expandindo, contraindo.
E naquelas pupilas, negras bailarinas imóveis, vi seu coração. Pulsando, expandindo, contraindo. Quase em minhas mãos.
O frio entrou, mas o calor dos beijos o mandou embora.
Era junho, o que podíamos ter feito?

O começo do fim do meio...


Escute o começo do fim do meio...

E se eu te pedisse uma vez,
Se eu implorasse talvez,
Você seria minha vida?
Você seria minha ida...?

Se é pra testar, pra correr , pra chorar
Você seria minha volta...?
Como quem chora a rima solta,
Como quem se perde no mar...?

Se eu te implorasse,
Chorasse, calasse...
Você seria minha, meu, pra mim..
Seria um negro marfim?
Escute o começo do meio do fim.

Talvez, se... talvez.
Como, quando e por quê???
Você seria a interrogação,
Aquilo que quero ter?

Se eu te implorasse,
Chorasse, calasse...
Você seria minha, meu, pra mim...
Seria tão negra assim?

E se eu te pedisse uma vez,
Se eu implorasse talvez,
Você seria minha vida?
Você seria meu?

Metade


Será mais complexo.

E talvez desconexo.

E talvez você ache feio,

Mas,

Vou tentar...



Não me olhe com esses olhos verdes assim.

São verdes como a esperança.

Chega!

Olhe para lá!



Ah, não. Não me olhe com esses olhos verdes assim.

Verdes como manga com sal,

Sabor estranho!

Salivo.



Não me olhe com esses olhos verdes assim!

Cor de erva, maresia e sono.

Pare!

Olhe para mim!



Não gosto quando me vê

Sem roupa, sem carne.

Não quero ficar tão nu.



Vamos ver um filme, venha.

Sente no sofá comigo.

Use meu moletom azul.



Vamos embora comigo?

Só vou perguntar quatro vezes.

Ah, não. Não me olhe como Alf, o sedutor.

Diga que vai.



Não me olhe como um robô michê de AI.

Vire esses olhos verdes pra lá!

Diga que vai.



Vamos, faça uma invasão de domicílio.

Chegue perto demais. Mais “Closer”.

Algo como o amor não tira férias.



No fim, eu só queria um beijo roubado.

Hum. Vamos mesmo?

Choverá, abrirei o guarda-chuva pra você.



Caminhe comigo, pendure as roupas no varal.

Ponha o moletom azul.

Tire o moletom azul.



Deite comigo.

Não! Não olhe com esses olhos verdes no travesseiro.

Feche os olhos.

Pense em mim como algo passageiro.



Hum. Abra os olhos!

Deixe que a noite entre e saia.

Me olhe. Me beije. Me abrace.

Abra os olhos pra mim.



Estou confuso com tudo.

Posso ganhar só um abraço?

Tem alguma rosa pra mim?

Quem sabe, duas?



Será mais complexo.

E talvez desconexo.

E talvez você ache feio,

Mas,

Vou tentar...



Tem alguma rosa pra mim?

Quem sabe, duas...

Metade?

Belém, blém...


Por quem os sinos dobram?

Os sinos...

Doces meninos,

Dobram em Belém.



Mas se eu dobrar a esquina,

Curva pequena.

Dobro em você.



É só subir aqui,

Que eu desço ai.

E as sacadas serão os palcos.



Por que os sinos dobram?

Aí, jamais saberemos.

Por suaves venenos,

Vinhos argentinos ou chilenos?


Pontes-aéreas,

Pontes sobre mares,

Ou rios em todos os lugares,

São meros espectadores.



Os dias se passaram,

As mãos se passaram,

As tias continuam nas janelas.



E foram botos, açaís e patuás.

E foram bois e bumbás.

E foram, cada qual para seu norte

E sul.



Mas ficou algo.

Um gosto amargo de crueldade.

O seco do vinho na boca.

O aperto de uma cama pequena.



E fincou algo.

Um espinho que machuca.

Uma mordida na nuca.

Um adeus velado e cru.



Será que volta?

Os sinos da igrejinha da esquina

Não pararam de tocar.

Nem as águas, dos rios e mares,

Pararam de correr.



E como janeiro é mês de chuva no país,

Talvez volte com as águas,

O gosto cruel da boca seca de vinho.

Christy em Sal


Como um bom christão,

Cerro os olhos e rezo.

Ponho as mãos em palmas e

Penso em minh’alma.



Penso em teu sangue,

Escorrendo por minhas mãos,

Que lambo suavemente,

Pensando em teus dons.



Como Christy em cruz,

Abro os braços

Pro teu abraço,

Em sol, em luz.



Nem santo, nem demônio.

Nem Pedro, nem Judas.

Tenho outro nome,

Outros erres, outros as.



Sou teu filho,

Sou teu pai.

Sou teu amor.



És minha dor,

És meu ai,

És o gatilho.



E sempre que atira,

É em mim que acerta.

Não sei se flerta

Com a mira.



Mas o sangue é meu,

Escorrendo por tuas mãos.

Que suga como ateu,

Pensando em meus dons.



Christão, serei eu.

E Sal será teu chão.

E os pés descalços,

Em carne pisarão.

O universo goza você


Tenho imagens mentais confusas.

Vejo você dançando em volta de uma árvore,

Vejo a lua, anzol pescando estrelas.



Sonhos coisas escusas,

Vejo você dançando sem roupa,

Vejo a lua, nua, louca...



E as estrelas?

Ah! As estrelas piscam,

Mini-orgasmos pulsantes

Ou um orgasmo gigante.



O Universo goza você.



Tenho imagens confusas.

Ingênuas, sacanas, obtusas.

Vejo você...

sufoco


se te sufoco, e então?

é porque tentei sufocar antes em mim as dores de uma partida sem vida.

é porque tentei sufocar os gritos de dor e desespero pelos sonhos quebrados.

é porque tentei sufocar as lágrimas de um tempo que não pretende voltar...



se te sufoco, então...

é porque tentei manter o desespero em um coração pequeno.

é porque tentei calar o grito em uma boca grande.

é porque , em vão, pus as mãos sobre o corte que não pára de sangrar...



se desisto, e então?

é porque a partida veio e a vida foi.

é porque a os sonhos ecoaram em paredes vazias.

é porque o tempo inundou os olhos cansados.



se desisto, então...

é porque o coração não suportou.

é porque a boca não calou.

é porque o sangue acabou.



e se tudo tem um porquê, ele ainda não bateu a nossa porta.



será que demora????

Quando eu conseguir...

Quando eu conseguir,

Eu prometo deixar de lado

As amarras que quebrei.

Mas até lá,

As amarras estarão em meus pulsos

Sujas de sangue.

Meu suor, minhas lágrimas,

Tudo estará lá.

Em você e nas amarras.

Quando eu conseguir,

Eu juro que deixo lá,

O sorriso doce.

Meu sangue, meu leite,

Tudo estará lá,

Em você e nas amarras.

Queria poder viver melhor

Sem você.

Sem as amarras.

Meu sangue.

Meu sorriso.

Meu amor.

E as amarras ficarão lá,

Quando eu conseguir.

Fazenda Esperança

Cansado, deixou que a mala caísse sobre a cadeira.

Até que gostava de viajar, mas essa rotina já pesava sobre o corpo envelhecido.

Sorriu para a mulher que passava pelo caminho. Nem sempre as pessoas sorriam de volta. A vida de itinerante era vista como algo impróprio para homens solitários. Mas dessa vez, ao menos dessa, a mulher sorriu de volta. Antonieta se importava com o que os outros diziam, mas ela era outra solitária da fazenda, não via problemas em manter essa relação cordial com o vizinho.

Giovane chegava aos 40 anos. Solteiro, sem filhos. Nunca foi bonito. Sempre magro, sempre quieto. Morava na fazenda Esperança havia uns 15 anos. Chegou lá com seus pais, Tereza e Pedro Paulo, vindo do interior de Minas Gerais.

Não era alfabetizado, mas sabia calcular muito bem. E foi por isso que aceitou trabalhar como vendedor de mantimentos. Seu pai sempre fora peão, sua mãe sempre dona de casa e não era isso que ele planejava para si. Queria conhecer outros lugares, ver os mares, coisa que, aliás, nunca conseguiu.

Empurrou a mala para o chão com o pé esquerdo e sentou-se na cadeira. A estrada da fazenda passava uns 5 metros de sua varanda. Pegou o fumo do bolso da camisa suja e sem os 3 botões de cima. Pegou a palha e fechou um cigarro.

De pernas cruzadas, sentado, olhou para Antonieta que seguia pela estrada. O pôr do sol com sua luz laranja deixava seus cabelos loiros da cor do fogo. Seu vestido de chita branca voava e a obrigava a segurá-lo com uma das mãos. Suas nádegas ficavam marcadas pelo tecido.

Sentiu seu pênis enrijecer. Tocou-o por cima da calça com a mão esquerda. A direita segurava o cigarro. Ficou assim, alisando seu membro rijo até que a mulher sumisse de sua vista.

Pensou em entrar e se masturbar. O único ato solitário que lhe dava prazer ultimamente. Levantou-se.

Antonieta caminhava pela estrada a passos longos. Não gostava de andar sozinha depois que escurecia. Voltava da casa da patroa. Era empregada da dona da fazenda, Veridiana, uma senhora rica, filha única, viúva sem filhos que transitava entre a cidade e a fazenda levada por seu advogado Emanuel. Ninguém sabia que relação eles tinham, se eram amantes, se a velha o tinha como filho, se ele queria roubá-la. Muitos achavam que ele esperava pela sua morte para mostrar os dentes. Antonieta não gostava dele. Tinha olhos muito espertos, dizia para os outros vizinhos, aliás, todos empregados da velha.

Faltavam uns dez minutos para que ela chegasse a sua casinha. Um quarto, uma sala, uma cozinha. O banheiro, como em todas as outras casas de empregados, ficava separado dessa estrutura. Parou. Lembrou-se que D. Veridiana havia dito que se ela visse Giovane, que lhe pedisse para ir vê-la. Ficou por alguns segundos pensando se voltaria,e achou melhor dar o recado logo. Qualquer coisa ele a acompanharia até sua casa depois.

A casa dos dois eram as únicas para aquele lado da fazenda. A dele foi construída ali porque os mineiros tinham outra cultura, não dava pra misturar com os alemães que ia dar briga, dizia o velho pai de D. Veridiana. Já a casa de Antonieta acabou indo para aquele lado porque meninas puras não deviam conviver com ela. Seu falecido marido a conheceu em uma casa de tolerância para os lados do Paraná. E contrariando os pais, levou-a para morar lá. Não foram muito felizes, menos de dois anos de casamento e ele foi morto por um touro. Desde então, ela trabalhava na sede da fazenda. Ajudava a mulher do capataz. Diziam que o velho dono, pai de D. Veridiana, fazia questão de tê-la trabalhando lá, uma distração para os olhos cansados.

Antonieta voltava. Fazia uns 8 anos que morava sozinha ali. Mas ainda tinha medo de ser agredida. Afinal, todas as pessoas do lugar sabiam de seu passado. Seu medo era tanto que nunca ia aos bailes da região, mesmo quando convidada por alguém. Sendo assim, nunca havia estado com outro homem. Para satisfazer seus impulsos sexuais, gostava de deitar nua, ainda molhada depois do banho, e cruzar as pernas com força, sentindo seu clitóris pulsar. Ficava assim até ter um orgasmo. Aí secava-se e dormia.

O escuro agora tomava conta do tempo. Antonieta seguia a divisa da terra com a grama, caminho marcado pelo gado. A lua cheia clareava o trajeto. Mas estava arrependida de não ter chegado a casa primeiro e pego uma lamparina. Não sentia atração por Giovane, sentia pena dele. Lembrava do dia que seus pais morreram. Ladrões de gado entraram em sua casa e atiraram contra os velhos. Ele viajava, só chegou quando já haviam sido enterrados. Como ele vendia os produtos para todos os vizinhos, D. Veridiana achou melhor que ele não saísse dali. Outro mascate demoraria muito a ser aceito pelos alemães.

Estava chegando ao portão de Giovane, ainda lembrava o medo que sentiu no dia dos assassinatos. Revivia os sons que ouviu. O pavor que os assaltantes fossem para sua casa também. Pensou em gritar no portão, mas não queria que os outros vizinhos e vizinhas a vissem ali. Poderiam pensar algo negativo. Assim, abriu o portão e se dirigiu para a casa. Ia chamar Giovane discretamente pela janela e dar-lhe o recado da velha.

Quando chegou a janela, viu Giovane nu, sentado em um pelego no chão da sala. Ele se masturbava e soltava uns gemidos. Ficou tão envergonhada que pensou em ir embora, mas algo chamou sua atenção.

A sala tinha poucos móveis. Velhos, sujos. Um lampião no chão ao lado direito do homem iluminava o ambiente de baixo para cima. Ela, lentamente colocou seu olho direito no canto inferior da janela, de uma forma que não pudesse ser vista. E fixou o olho na mão esquerda de Giovane.

Ele se masturbava com a mão direita, sentado com as pernas abertas de costas para a parede e de frente para a janela. Com a mão esquerda ele massageava seu ânus. Introduzindo levemente o dedo indicador. Dessa forma podia também massagear seus testículos com o punho.

Giovane, de olhos fechados pensava em Antonieta, e a imagem da bunda colada ao vestido. E ao abri-los levemente, pode vê-la na janela. Mas não se assustou, achou que era parte da sua fantasia. Foi então que disse seu nome em voz alta, como um gemido. Antonieta.

Ela sim se assustou, achou que ele a havia visto e gostado. Sentiu um frio subir e descer pela espinha. Depois do frio, sentiu um calor subir pelo ventre. Sentiu sua vagina se contrair, e cruzou as pernas com força como fazia em casa. Lembrou-se do marido, lembrou-se do motivo que o fez tirá-la do prostíbulo e casar-se com ela. Ele gostava de ter o ânus massageado, ela pensou em como ser dominadora lhe dava prazer.

Mesmo aos 40 anos, Giovane nunca tivera coragem de realizar suas fantasias sexuais. Sempre que estava na companhia de prostitutas, era um típico macho, como pensava. Penetrava a fêmea e só, como os cavalos e bois. Muito raramente pedia sexo oral. Sexo com essas mulheres era quase um ato de desespero. Era apenas para ejacular. O prazer era resumido à ejaculação. Mas quando estava só, se permitia explorar o corpo. Já havia introduzido dedos no ânus, já havia brincado com cenouras, penetrado abóboras, melancias. Solitário, Giovane se permitia ter prazeres. Sentia-se um galo. E como diziam os mais velhos, galos trepam pelo rabo e só comem galinhas.

Antonieta não demorou muito pra sentir as pernas amolecerem. Suas roupas íntimas ficaram inundadas. Sentiu-se novamente uma puta. Teve vontade de apanhar, de bater. Teve vontade de morder e ser mordida. E mesmo que Giovane não lhe fosse atraente, sentiu vontade de possuí-lo. Fez a volta pela casa, e sem pensar duas vezes abriu a porta.

Giovane deu um salto, viu Antonieta entrar enquanto ele se tocava. Sentiu sua masculinidade escorrer pela sala. Será que ela havia visto ele com os dedos no ânus? Mas o susto não foi o suficiente para que seu pênis amolecesse. Ele se sentiu ridículo, nu, despido de roupas e honra. Seu sangue ferveu. Seu membro latejou ainda mais.

Ela, sem dizer nada, bateu a porta atrás de si. Tirou o vestido pelas alças, deixando seus pequenos seios a mostra. E sempre sem dizer nada, foi descendo o vestido. Ele, em pé, como uma letra t deitada, percebeu que ela também o queria. Foi em sua direção para beijá-la. Ela meteu-lhe a mão na cara. Os cinco dedos marcaram sua face. Ele arregalou os olhos, mas não teve tempo de reagir. Ela o virou contra a parede velha e suja, e sem aviso ajoelhou-se e abriu suas nádegas com as mãos...

Deu-lhe o recado apenas no dia seguinte, depois de toda a noite de sexo sem pudores e limites.

Um corpo.

Era tarde, eu cansado acabei me separando em muitas partes.
Olhei-te diretamente nos olhos e resmunguei:
-Escolha!
Como sempre, você escolheu todas as erradas.
Quis as mais superficiais, as mais bonitas, as semelhantes.
Juntei o que sobrou. Não era nada útil, mas ainda era eu. Sentei-me na cama. Sentindo falta do que você tinha levado.
- Ainda sou eu?
Passei a mão pelas pernas, senti as coxas, peguei em meu pau.
- Ainda sou eu?
Apertei as bolas, subi pela barriga, pescoço, pus as mãos no rosto.
Chorei como uma criança que aprende o que é um não.
Deitei-me. Sem camisa e de bermuda.
- Ainda sou eu?
Mas que partes você levou?
Em quantos pedaços sou capaz de me dividir?
Ao menos dois básicos: corpo e mente.
- Você teria levado a mente?
Não, a mente ainda está aqui escrevendo isso.
Bem, então, sou capaz de me dividir em mais.
- Corpo, mente e alma?
Então você teria levado minha alma.
Que lama me resta?
Sem alma, só lama?
Brincando com as letras, parece que surge a verdade.
Se você levou o melhor, o pior me prende nesse lamaçal.
- Isso sou eu?
Não. Não foi isso que você levou.
- Corpo, mente, alma, sonhos?
Hum...
- Corpo, mente, alma, sonhos, dores?
- Amores, família, amigos, dores?
- Cacos, surtos, gargalhadas?
- Cabeça, tronco e membros?
Qual parte ainda resta?
Levantei-me e tirei a bermuda. De cuecas fui até a cozinha, enchi um copo de água gelada. Voltei para o quarto.
Olhei para mim no espelho e resmunguei de novo:
- Escolha!
Fiquei horas parado com o copo na mão. Olhos, boca, nariz.
- Peito, cabelos, pentelhos.
- Boca, mãos, carteira.
- O que você levou? O que eu levei?
Sorvi a água quente. O copo fervia como eu fervo em dias de lua cheia.
- Calor, frio, cinismo?
- Dentes, porra, sangue?
Qual parte ainda resta?
Qual parte é aresta?
Alma, lama, cama.
Deitado, teto.
Em pé, reto.
Qual parte você levou?
O que restou?
E eu, o que sou?

Nu com o pão no chão.


Bárbara acordou ainda bêbada. Passou a mão pela cama buscando por algum corpo masculino. Se houve, não estava mais lá.

A luz entrava pelas frestas da janela. Era manhã ou tarde?

Puxou a alça da camisola, estava com um seio de fora.

Será que foi lambido? – pensou, passando a mão entre as pernas.

O vizinho de cima, Tiago supunha ela, falava com alguém ao telefone bem em cima de sua janela. Ela ouvia a conversa:

- Então, acordei com minha mãe me chamando. Tinha uma cara pelado em cima da minha mesa. Eu não sabia o que fazer. Disse que era um amigo para a velha não surtar e botei-a pra dormir antes que ela tivesse desejos pelo cara.

- Pelado na mesa do vizinho? – Bárbara saltou da cama.

- Gente, era meu? - sua cabeça deu voltas pela Lagoa, enquanto ela se perguntava em voz alta:

- Ai, será? Eu vim embora sozinha?

Abriu a porta do quarto, olhou para o corredor. Com certeza era dia, mas era manhã ou tarde. Afinal, era domingo ou segunda?

Pensou nos gatos. Não esses que dormiam com ela. Bem, quaisquer que fossem, dormiam com ela. Mas ela pensava nos felinos, Tiffany e Negrão. Os gatos que ela amava porque eram os beijos mais sinceros que ganhava ultimamente.

Não fazia muito tempo que a Tiffy, como se chamava a gata angorá rajada, havia descoberto a dor e a delícia de ser felina.

- Ah, uma ratoooooooo. – foi a única coisa que Bárbara pode gritar. A gata pela primeira vez havia pegado um rato. Ela não estava preparada para isso. Seu nojo feminino era maior do que o instinto do animal.

Olhando para o corredor, viu os gatos virem em direção à porta entreaberta.

- Ai queridos! – foi só o que pode exclamar quando viu os dois vindo para o quarto.

- Mas e o pelado???

Pensou em vestir uma calça. Só de camisola e calcinha fio-dental era pouca roupa para ir até a sala.

Mariana estava no ônibus. Cansada, mal dormira durante a noite. Assentou a cabeça no vidro da janela enquanto o veículo fazia as curvas do morro.

Trabalhar antes das dez ninguém merecia, pensava enquanto via as dunas da praia.

Sua noite não tinha sido das melhores. Morava com Bárbara há algumas semanas, e como as duas eram muito parecidas: lindas, morenas e amigas das loiras geladas, sempre saiam juntas. Mas nunca sabiam com quem voltavam. Quando voltavam juntas.

Mariana fechou os olhos tentando não chorar. A beleza da paisagem era de doer. E a noite havia sido estranha.

Bárbara foi até a sala. A luz invadia o ambiente. Duas janelas sem cortinas. Um rack, uma TV, o som, uma estante e um homem de bermuda azul, com uma tatuagem de Jesus no braço esquerdo, deitado no sofá.

Parada em frente à geladeira, ela olhava com um ar inquisidor para o homem em sua sala.

- É o Marreco? – pensava ela, imaginando ser seu colega de trabalho, com quem ela e Mariana tinham saído na noite anterior.

Aproximou-se, olhou com calma. Sim, era o Marreco. Mas na sala? E de bermuda?

Pensou em ligar para Mariana, pois era no quarto dela que ele tinha ido parar.

- Meu Deus!!! – exclamou em voz alta ao perceber que era ele o homem nu na mesa no vizinho de cima.

Teve quase certeza de que deveria ligar para a amiga.

Mariana já estava no trabalho. Sentia dores na nuca, tinha aquele gosto de guarda-chuva na boca, coisa que todo mundo que bebe sabe como é, e ainda se perguntava: -Eu gozei???

Estava cansada de seus relacionamentos: Amante. Amiga. Gays.

Tinha 30 anos, mas aparentava menos. Bárbara tinha 25 e parecia um pouco mais. Eram parecidas mesmo sendo diferentes. Pareciam ter a mesma idade e os mesmos desejos: -Um grande amor!

Mariana olhou pela bancada cheia de produtos: - Vou pesar essas merdas para ver se têm o peso da embalagem!

Mas antes que pudesse chegar a qualquer produto, lembrou-se do Marreco: -Mas onde foi parar aquele puto?

Quando acordou, seu quarto estava do avesso. Portas e gavetas do roupeiro abertas. Porta do quarto aberta e nada do Marreco pelo apartamento. Só não se preocupou com um furto porque a bolsa estava com tudo dentro. Como estava atrasada para o ônibus, achou melhor ir. – Ele deve ter ido embora.
- Mas onde estaria a tatuagem de Jesus no braço esquerdo?

Bárbara voltou para o quarto. Trancou Tiffy e Negão com ela, e jogou-se na cama com os dois.

Tiago estava novamente no telefone.

- De novo? – pensou ela outra vez com um seio de fora.

- Então, tive que desligar porque minha velha estava me ligando, mas aí para concluir, fiquei parado olhando para o cara, pensei se dava um soco, se chamava a polícia. Aí acabei acordando o louco. Dei minha bermuda azul e mandei-o ir pra casa. Vi que ele tinha posto o saco de pães que comprei no chão antes de deitar-se. Agora fico me perguntando o que teria acontecido se minha mãe estivesse sozinha?

Bárbara, começou a gargalhar. Sim, era o Marreco na casa do vizinho de cima. Pelado, em cima da mesa. Com o pão no chão.

Mariana pesou tudo o que precisava. Deixou de lado a dúvida pela manhã. Mas já era hora do almoço. Tentou fazer o trajeto do bar para casa mentalmente: - Pub, mercado, posto, virei à direita, segui até a praça, ri quando a Bárbara tropeçou no meio fio, direita, rua de casa, pousada laranja, academia, portão, Marreco?

- Marreco???

- Marreco? Ai, que merda, eu levei o Marreco para casa comigo?

- Ah, sim. Marreco do lado direito, portão, porta, Bárbara indo para o quarto dela, eu ligando o som. Marreco tirando a roupa, minha cama. Eu pensando no Camilo. O Marreco brigando com o próprio pinto. O Camilo de novo. Eu rindo do Marreco. Ele me beijando o pescoço, o Camilo; ele descendo por entre minhas pernas, o Camilo; ele xingando o pinto de novo, eu rindo. Ele saindo do quarto. Despertador.

- É, não gozei!

Bárbara dormiu com os gatos. Acordou horas depois:- Sede. Preciso de litros de água.

Abriu a porta e só então se lembrou que um seio ainda estava à mostra.
Arrumou a camisola, e foi tateando pelo corredor.

Olhou para o sofá. A bermuda azul estava no sofá. O Marreco não. Só então se lembrou de que não tinha dormido sozinha.

- Sim, aquele seio foi lambido. – disse rindo em alto e bom tom.

Pensou em deixar um bilhete para Mariana quando saiu para trabalhar. Mas achou melhor fingir que nada havia acontecido; e a bermuda azul segue guardada no seu roupeiro.